
— O que é que tu fazias se soubesses que esta era a última noite do mundo?
— O que é que eu fazia? A sério?
— Sim, a sério.
— Não sei. Nunca pensei nisso.
— Bem, é melhor começares a pensar nisso — disse ele.
— Acho que não estou a perceber.
— Não, nem eu, realmente; é apenas uma sensação. Umas vezes mete-me medo, outras vezes não sinto medo nenhum, pelo contrário, sinto-me em paz. Olhou para dentro, para as miúdas com os cabelos louros a brilhar à luz das lanternas. — Eu não te disse nada. Aconteceu a primeira vez mais ou menos há quatro noites.
— O quê?
— Um sonho que eu tive. Sonhei que isto ia tudo acabar e uma voz disse-me que sim; não era um qualquer tipo de voz que eu consiga recordar, mas uma voz, de qualquer maneira, que dizia que as coisas iam acabar aqui na Terra. Não pensei muito no assunto no dia seguinte, mas depois fui para o escritório e apanhei o Stan Willis, a meio da tarde, a olhar pela janela e perguntei-lhe, em que é que estás a pensar, Stan, e ele respondeu, tive um sonho a noite passada, e antes de ele me contar o seu sonho eu já sabia qual era. Podia ter-lho dito, mas ele contou-me e eu fiquei a ouvir.
— Era o mesmo sonho?
— Exactamente. Disse ao Stan que também tinha tido aquele sonho e ele não pareceu ficar surpreendido. Ficou até muito calmo. E então, sem uma razão aparente, começámos a andar pelo escritório. Não foi nada planeado. Nós não dissemos «Vamos dar uma volta por aí». Começámos apenas a caminhar espontaneamente, e por toda a parte víamos as pessoas a olhar para as secretárias, ou para as mãos, ou pela janela. Falei com alguns, e o Stan também.
— E todos tinham sonhado?
— Todos. Exactamente o mesmo sonho.
A Última Noite do Mundo -
Ray Bradbury